segunda-feira, 23 de maio de 2011

Quer um carro? Imprima um.

Falta um lustre na sua casa? Talvez pratos. Um mouse para o seu computador. Ou, quem sabe, você acha que seu celular não tem personalidade e gostaria de mudar seu design.

E se você pudesse imprimir tudo isso em casa, sozinho, com a cara que quisesse? Pois as impressoras 3D, antes confinadas ao setor de protótipos, já permitem isso.

São aparelhos que usam técnicas variadas --da deposição da resina plástica à moldagem de objetos com pó e laser-- para construir peças criadas em programas de computador do tipo CAD, para desenho tridimensional.

Com o barateamento e a rápida evolução da tecnologia, o consumidor logo poderá fazer isso em casa, assumindo maior controle sobre a forma de seus objetos pessoais e reduzindo drasticamente os custos para iniciar um pequeno negócio.

"Você não precisará mais de um aparato industrial enorme para fabricar esses objetos que visam o consumidor", disse à Folha o pesquisador Peter Schmitt, 33, que acaba de defender seu doutorado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) sobre o tema.

Schmitt desenvolveu para sua tese um relógio de parede totalmente fabricado por uma impressora 3D. Ele já é "impresso" montado, com as engrenagens encaixadas, pronto para funcionar.

CONSUMIDOR

As impressoras 3D não nasceram agora. Há pelo menos dez anos elas são bastante utilizadas para construir protótipos. O que mudou é que finalmente elas chegaram a um estágio, tecnológico e de custo, que permite seu uso comercial. O próximo passo é o consumidor.

Hoje, uma pequena impressora 3D pode ser comprada por US$ 2.000 (R$ 3.200 --uma de maior porte, do tipo que fez o relógio e que é voltada para empresas, pode sair por US$ 40 mil).

A Folha viu uma das versões pequenas em ação, enquanto produzia uma peça de xadrez.

O trabalho todo levou duas horas e basicamente consistia em uma pequena máquina robótica que derretia um fio de resina plástica do tipo ABS (sigla em inglês para acrilonitrila butadieno estireno) e depositava, em camadas ultrafinas, até que o objeto estivesse formado.

A perfeição do produto final varia de acordo com o número e com a espessura dessas camadas.

É difícil imaginar que hoje muita gente vá comprar algo assim para manter em casa e produzir pequenas peças --até porque é preciso entender um pouco de programação, ou de CAD, para mandar imprimir o tal objeto.

NÃO NA CHINA

Mas a pesquisa atual avança para uma linguagem mais simples e amigável para o usuário.

Schmitt diz que as máquinas atuais estarão obsoletas em cinco anos e compara os efeitos de sua eventual popularização com os efeitos dos softwares de música sobre a indústria fonográfica e a mentalidade do consumidor.

"Havia as grandes gravadoras, que mantinham os artistas por contrato e distribuíam sua musica ao público. Hoje, os softwares permitem que você se grave e venda seu material para as pessoas diretamente, em MP3."

A indústria também pode se beneficiar dessa massificação das impressoras.

Hoje elas produzem objetos inteiriços, não maiores do que 40 cm ou 50 cm, a partir de plástico e ligas metálicas específicas, afirma Schmitt.

Mas a indústria aeronáutica trabalha para mudar isso, e, uma vez que essa capacidade seja ampliada, os usos serão virtualmente ilimitados, diz ele. O trabalho humano ficará só na criação.

"Você poderá imprimir um carro em qualquer lugar, pelo mesmo preço. Não precisaremos fabricar as coisas na China porque lá os custos de produção são menores", diz Schmitt, exibindo um pequeno carro impresso no MIT de uma só vez, sem encaixes.

"E poderemos produzir por demanda, muito mais rapidamente", complementa.

Custos de transporte praticamente inexistiriam. O conceito de estoque iria se transformar. O de design também, já que, como explica Schmitt, objetos grandes e pequenos têm sua forma hoje ditada também pelas limitações de maquinário, que impõem encaixes e montagens.

(LUCIANA COELHO = Impressoras 3D viram 'artigo popular'- em http://www1.folha.uol.com.br/mercado/919154-impressoras-3d-viram-artigo-popular.shtml )

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